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blog do Linguanoto


I would prefer not to, sir


   Ontem foi o antepenúltimo dia de Bartleby, peça encenada pelo Núcleo Caixa Preta no Sesc Paulista. Baseada no conto Bartleby, o escrivão de Herman Melville (1819-1891), é considerada a obra-prima do autor.
   Meu primeiro livro de Melville foi comprado, por assim dizer, por um prefácio de Borges. Era uma edição tosca e mal-acabada de Moby Dick. A luta do capitão Ahab contra o cachalote, segundo o mestre argentino, traz nuances que simbolizam e abarcam, gradativamente, o próprio universo. É um retrato do mito bíblico do Leviatã e das forças elementares que governam a natureza.
   O diretor Joaquim Goulart usou a adaptação que o espanhol José Sanchis Sinisterra deu ao conto, no qual contracenam apenas dois atores (no original, são cinco): Cácia Goulart, interpretando Bartleby, e Rodrigo Gaion no papel do advogado e chefe do escrivão.
   Melville constrói personagens como poucos. Sabe explorar o íntimo de cada personagem, ao mesmo tempo em que os universaliza. Há um ponto em comum entre o capitão Ahab e o escrivão: a persistência levada ao limite, o racionalismo posto em xeque. Bartleby é personagem única, plano na aparência, redondo no contexto.
   A relação dele com o trabalho e o mundo não é passiva nem direta. A opção pelo “I would prefer not to” implode a “prudência e método” cultivada pelo advogado e desestrutura todo o sistema. A ação é a própria inação. O escrivão é obstinado em não agir, assim como Ahab não descansa enquanto não tiver seu harpão cravado em Moby Dick.
   Insinua-se, em Bartleby, que a apatia não é inofensiva e o racionalismo, levado ao pico, desumaniza aos poucos. Vê-se a ação, não seus motivos. A “alma doente” de Bartleby não é explorada explicitamente. Nem se sabe do que afinal padece, já na prisão. Seus trejeitos, seus atos e seu destino são previamente determinados, e isso lembra Kafka em O Processo.
   Mas quem se importa com motivações quando se vê em Bartleby a reunião das angústias do homem moderno? A impessoalidade nas relações, a solidão imersa no formigueiro humano, a desvirtuação do trabalho e a vida sem explicação. Bartleby é um incômodo recado, catártico no sentido de padecer do mal do homem moderno. Quando o sistema estiver prestes a nos consumir, quando a vida é posta em função do trabalho, e não o contrário, lembremo-nos de Bartleby.



Escrito por Linguanoto às 09h07
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21 gramas



A renúncia de Fidel Castro ao posto de presidente do Conselho de Estado e Comandante-em-chefe das forças armadas de Cuba não foi, por assim dizer, notícia alvissareira para direita (seja lá o que isso seja) nem para esquerda, lacrimosa desde a queda do muro de Berlim.

Por ora, as perspectivas são as seguintes: continuidade do embargo econômico, permanência de Raúl no poder (há quem diga que não se sustente), agonia política e continuidade da coluna Reflexiones del comandante. Para a direita, o fim de mais uma tirania se aproxima; para a esquerda, morre o regime, não o ideal (acho que já ouvi esse discurso...)

A ausência do estadista de 81 anos pode representar o desmantelamento do último bastião do socialismo real do Ocidente. Pode, também, significar o início da reformulação de um modelo que, pelo menos desde 1956, tem demonstrado sua debilidade política e o descolamento da realidade.

Verdade seja dita, o que se vê na Cuba castrista é uma simbiose entre o regime e seu líder. Fidel corporifica o socialismo utópico e o real. É a personificação do próprio Estado e, ao mesmo tempo, comandante e ideólogo, ditador que virou mito e mito que continua vivo, por que não morreu. É, também, humano, reconhecendo sua fragilidade nos últimos 19 meses e transferindo o poder ao irmão.

A confusão entre Estado e estadista, entre líder e mito construído ao longo dos anos fez com que camadas de ranço ideológico e interpretaçães equivocadas se acumulassem no debate político.

Por vezes me pergunto se a paixão de colegas pelo assunto concerne mais à ditadura cubana ou a Fidel Castro, e geralmente sou levado a crer mais na última opção. Costumo chamar isso de socialismo pessoalizado, concepção em que vale mais o carisma o líder e a utopia que ele representa, não seus feitos e desméritos.

Propor esse tipo de discussão, nesse momento, é desvirtuar o assunto. Por isso, digo apenas que sou partidário da opinião de que o sonho cubano expirará com o último trago do comandante, por que ele é a própria Cuba de seus planos.

Não cabe aqui julgar se Cuba valeu a pena ou não. Também não sei se a truculência serve de pretexto para implantar a liberdade a fórceps, nem se a raison d’état legitima a truculência. Vale a pena assassinar 141 mil cubanos em nome de um regime? (O número se refere ao período de 1959 a 1987, e pode ser conferido neste link ). Vale a pena suprimir as liberdades individuais em nome de um Estado que protege seu povo das famigeradas “leis de mercado”? Os valores do povo cubano são inerentes às pessoas e à tradição popular ou foram inculcados pela intervenção estatal? A que custo se mantém um povo letrado que não pode se expressar e que tem a um alto padrão de medicina? (Em tempo: a medicina de Cuba é eminentemente preventiva, não profilática e de alta tecnologia).

A liberdade, seja lá o que isso for, deve ser perseguida pelos cubanos – que, como qualquer povo, detêm o direito à autodeterminação. Por isso, não seremos nós, pretensos formadores de opinião, que decidiremos o futuro da Ilha. Também não nos cabe definir liberdade, por mais que Frei Betto, Emir Sader ou Marilena Chaiui o intentem; não devemos cair, igualmente, na tentação de atirar tomates nos que acreditam em utopias, como Mainardi, Reinaldo de Azevedo e Olavo de Carvalho hão de fazer nas próximas semanas.

Ouçam o que o povo cubano tem a dizer, não a versão oficialesca do Granma. A eles, afinal, cabe o último julgamento. Não atiremos tomates; desarmemos o espírito, antes disso. O momento histórico é propício para reflexão, não de comemoração.



Escrito por Linguanoto às 21h28
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Para além do clichê, a vida








“ São Paulo estava certo e São Pedro, errado: a salvação se dá pelo trabalho, e não pela fé; esta, já matamos há muito tempo” (Paulo Francis)


Prometi para mim mesmo que excluiria o adjetivo “tautológico” do meu vocabulário assim que retirasse meu diploma. Teimoso que sou, usá-lo-ei (mesóclises também faziam parte da promessa) para falar de um filme que, se partisse de uma lógica xiita, não mereceria sequer essa introdução.


Descobri, afinal, que poucos dos meus poucos interlocutores sabiam o que significava a tal da tautologia. Também percebi que, além de ter de explicá-la, geralmente a usava de forma imprópia. Talvez consiga fazê-lo agora e, por isso, desenterrei-a do meu baú de palavras (e de curiosidades) absolutamente inúteis.


O signo da cidade foi alvo, desde o lançamento – ou, pelo menos, desde que tomei conhecimento do lançamento – de biquinhos, caras viradas e de admoestações em público. “Não assiste se estiver deprê”, uns me diziam. “Nem se tiver tendências suicidas”, outros alertavam. “Argh! Você quer ver isso?”. Sim, eu vi. E não fiquei deprê, com vontade de tirar a vida nem de pedir a devolução do ingresso. No máximo, de escrever essas linhas.


O roteiro pode ser bambo e a história, apelativa e melodramática, mas, por Deus!, eu tinha de ver Bruna Lombardi de novo. Mesmo que, querendo ser protagonista, a musa de meus tenros anos tenha sido mais go between -- a agulha que costura a narrativa, o corifeu que comenta a trama. Se fosse Riccelli, o marido-diretor, daria papel melhor para ela. Mas não sou diretor e, joguete do destino, nem esposo dela. Alas!


O filme, em verdade, nada abalou minhas convicções. Arrancou-me lágrimas, confesso, mas continuo tendo a mesma opinião que astrônomos têm de astrólogos. Devo eu avisar que não sou astrônomo também?


A roteirista Bruna, apesar da beleza perene, poderia ter semeado um pouco mais de verossimilhança na trama. Peço desculpas, mas recuso-me a acreditar que a cerveja que playboys jogam sobre um travesti esmurrado na rua tenha a mesma volatilidade do etanol. Ou que mulheres pobres dêeem à luz dentro de um estacionamento privado e, pior, que enfermeiros (nada pessoal, juro) façam o parto em tomada única, não cortando o cordão umbilical nem se sujando de sangue. A despeito dos obstetras, crianças nascem no momento certo. Mas aí já é demais. Mas aí, veja bem, a Bruna é tão linda...


Para além dos clichês, dos buracos e do melodrama, há a história. Poderia ter sido mais bem explorada, mas ela está lá. Desarmei o espírito, desnudei a crítica, disse o que o filme não é. Eis, agora, o filme.


H´ uma São Paulo cinzenta, onde pessoas solitárias vivem, assim como morrem, sozinhas. Onde o estranhamento é mútuo, onde pulsos telefônicos são, por vezes, a maior proximidade possível. Onde a experiência, já dizia Benjamin, morreu e está a léguas de distância.


O personagem Bruna representa o esoterismo no qual as pessoas se confortam. Alguns recorrem ao cinema, outros apelam à psicoterapia, outros pedem intercessão aos santos e outros, ainda, se afogam no vazio. Quando o mundo se torna ininteligível, é no além-mundo que elas se escondem. Há um diálogo, longínqüo que seja, com A Cartomante , de Machado.


Mas às vezes até as astrólogas – assim como os obstetras – precisam de ajuda. O mundo não será salvo pelos médicos, pelos diplomatas, nem, por mais apocalíptico que seja, pelos jornalistas. Bruna interpreta o herói em seu momento débil – e são nesses momentos que descobrimos o herói ordinário que somos, e são esses os momentos que nos tornam mais fortes. Quase auto-ajuda, não?


A astróloga que ouve as pitangas dos outros num programa de rádio é chamada a cumprir seu destino. Percorre as etapas de sua via crucis , supera obstáculos, vence o inimigo (nem sempre materializado) e volta para o ponto de origem renovada, e sua nova missão é dizer aos outros o ciclo por que passou.


Não sei quem vai salvar o mundo, nem se existe salvação para ele. Sei, no entanto – e estou cada vez mais convencido disso --, que a racionalidade não nos salvará, não enquanto continuarmos vivendo e, morrendo, sozinhos.


Essa foi a mensagem final do filme, assim que saí da sala. Faltou nessas linhas, confesso, um pouco do desenrolar da trama, mas quem se importa com ela? Para além do clichê, para além da síntese do filme, fico com Bruna, que, bem ou mal, empatizou-me com a vida.


Escrito por Linguanoto às 23h58
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Vai começar o espetáculo

 


 

Do que me inteirei sobre as primárias norte-americanas, um fato que me chamou a atenção foi a coloração personalista que alguns jornais da taba brasilis deram à cobertura dos pré-presidenciáveis.

Entendo por coloração personalista a cobertura que realça o lado pessoal do candidato, tal qual um personagem de ficção ou, em termos pós-modernos, de reality show. Assim sendo, Barack Obama é visto como o afro-descendente que encarna a mudança e contrasta valores como novo e velho, em vez de branco e preto, vermelho e azul. Hillary Clinton, por sua vez, é mostrada como a ex-primeira-dama que, depois de enfrentar o drama da traição, do processo de impeachment do marido e de peregrinar pela política, ganhou experiência e deu a volta por cima.

Como não seria democrático de minha parte omitir os republicanos, aqui vão eles: Mitt Romney representa o mórmon que desenterra discursos dos anos 80, acredita que Guantánamo deveria ser duplicada. Mike Huckabee é irônico, engraçado, popularesco e fã declarado de Chuck Norris. John McCain, por sua vez, encena o veterano de guerra de discurso otimista e que acha que a guerra do Iraque ainda pode ser ganha.

Digamos que qualquer leitor mediano entenderá que a construção desses personagens é, no mínimo, rasa. Entendo perfeitamente que um candidato-personagem deva ter seu lado pessoal explorado, e que a mídia se apegue a eventuais fait-divers para melhor caracterizá-los. Isso faz parte do jogo. Afinal, o ocupante do cargo mais importante do mundo é, também, humano como nosotros. E há quem diga que notícia em jornalismo é quando o homem morde o cão.

Os ensinamentos do senhor Joseph Goebbels, pai do marketing político, preconizam que é a emoção quem determina a opção do eleitorado, não a racionalidade. O candidato, aqui visto como produto, deve trabalhar com o que há de mais instintivo, sensorial, imanente e atávico no homem. Atingir seu ponto nevrálgico, em outras palavras. Isso garante, num primeiro momento, a simpatia do eleitorado e a identificação com o candidato. O processo eleitoral, desse ponto de vista, nada mais é do que uma grande vitrine, na qual produtos falantes e animados são expostos. Depois de eleito, vem o que interessa: a política.

Isso explica por que os pré-presidenciáveis preferem falar mais de assuntos caseiros a abordar temas macroenôcomicos ou de política externa. Acredito que um norte-americano de classe média esteja mais interessado em ouvir de seu candidato as posições com relação à liberalização do aborto, perda de valores familiares, união civil de homossexuais, imigração ilegal ou ao futuro do health care em vez de tratados de livre comércio ou a liberalização da economia.

É evidente que problemas externos também são abordados. O maior deles talvez seja o conflito no Iraque. Mesmo assim, esses temas são introjetados no público. Fala-se diretamente para os pais que perderam seus filhos no deserto ou para os fabricantes de armas nacionais, e não para os estrategistas políticos ou diplomatas. A preocupação com a China se dá mais pelo fato de que a concorrência desigual pode aumentar o desemprego e arrefecer a indústria do que pelo crescimento desenfreado do PIB chinês.

Como salientou o caderno Aliás de 6 de janeiro, num cenário pós-11/09, em que não há disputa pela reeleição e no qual o futuro político e ideológico do país – e do globo – continua incerto, o que vai decidir o páreo será a disputa irracional entre medo e esperança. Incorporar a luta contra o medo e empunhar a bandeira da esperança será a chave para o salão oval.

Insisto, mais uma e pela última vez, na personificação do candidato. Partindo do pressuposto de que os meios de comunicação exploram o lado mais excêntrico e pessoal dos candidatos e que o marketing os venda como produto, admitem-se duas possibilidades.

A primeira delas é que a mídia pode omitir ao eleitorado informações sob o argumento do interesse da opinião pública, e que o marketing, por sua vez, utiliza os mesmos recursos coercitivos da propaganda para construir a imagem de seu candidato-produto. Seria algo como ler Caras para se inteirar de notícias internacionais ou buscar uma companheira baseando-se em pesquisas de mercado ou pelo padrão de clínicas de estética.

A segunda possibilidade é que a política, entendida como o ato de administrar o bem público e conciliar os conflitos de interesse que surgem em seu entorno, foi preterida em detrimento do marketing político. Considero aqui marketing político não como a promoção e divulgação daqueles que pretendem administrar o bem público, mas como a especialização da técnica de criação, oferta e troca de produtos de valor. Levando esse raciocínio ad absurdum, seria como se a lata de sprite fosse mais importante que a própria sede.

Ao pessoalizar a eleição de candidatos e vinculá-la a artifícios mercadológicos, o indivíduo se põe acima do debate, a imagem vale mais que o conteúdo, a promessa verbal é maior do que a ação, e o candidato-produto, por fim, paira sobre a sociedade. A decisão irracional entre medo e esperança, laureada pelo marketing político, implica em decisões racionais e políticas que selam o futuro de toda uma sociedade. Não sei qual lição os norte-americanos tirarão desse maniqueísmo eleitoreiro. Em 2002, o Brasil optou pela esperança.



Escrito por Linguanoto às 16h29
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Honor the fallen

 


O youtube, apesar de seus vídeos fragmentários e frugais, ainda guarda alguma reserva de qualidade. Uma delas é o documentário The falling man, do diretor Henry Singer.

Singer se baseou no artigo do escritor Tom Junod, publicado na revista Esquire em setembro desse ano, para retratar uma foto e a história que há por detrás dela. Uma trama que vai muito além da cobertura exaustiva -- e, com todo o respeito às vítimas, melodramática -- que é feita desde os fatídicos acontecimentos de setembro de 2001.

O autor da fotografia, Richard Drew, captou o momento em que um homem despenca do World Trade Center, destino semelhante ao de muitos que, na iminência da morte, escolheram a opção instantânea e indolor. A foto transmite uma leveza insustentável, talvez por sua simetria – o corpo de ponta-cabeça está perpendicularmente alinhado às colunas do prédio, que, por sua vez, foi captado tendo como ponto central seu córner. O movimento dos braços e das pernas dá a impressão de que aquele homem ignora a gravidade, que resplandece em um momento de som e fúria, para depois deixar de existir. É a tradução em imagem do solilóquio de Macbeth, em seu conteúdo mais abrangente.

A foto foi publicada uma única vez. Talvez, de tão expressiva, tenha caído nas teias da auto-censura implícita depois do 11 de setembro. The falling man revela a busca pessoal do diretor para encontrar o homem da foto. Singer prova que, sim, é possível identificar um anônimo fotografado em meio a uma tragédia que ceifou a vida de mais de três mil pessoas. Mostra também que a decisão de se jogar de um prédio em chamas não obedece apenas a instintos de sobrevivência ou à otimização racional sobre qual a melhor forma de morrer. É bem provável que aquele homem só se atirou do alto do World Trade Center porque acreditava em sua fé. Não na fé cega de quem espera que Deus estenda sua mão e o salve da morte certa, mas naquela que permite ao homem concluir que, diante de uma situação sem escapatória, não há nada a fazer a não ser fechar os olhos e esperar dez segundos.



Escrito por Linguanoto às 12h09
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Consolatrix

Um dia de domingo atípico para a família. Pai, mãe, tio, tia e minha avó, dona Lia, vieram me visitar pela tarde. Propus, como programa de índio, visitarmos a igreja de Nossa Senhora da Consolação, lugar que tem me servido de refúgio por algumas horas do dia, há pelo menos dois meses. É estranho compartilhar os espaços que perfazem nossas vidas. O apartamento, muitas vezes, tem sido o meu reduto autista, como jocosamente costumo chamá-lo. A igreja, bom, ela não é minha, mas como me sinto pequeno lá dentro!

Acho que, no fundo, era esse o meu maior egoísmo: compartilhar com os outros a sensação de apequenar-se. De qualquer forma, era a atração com a menor distância a pé, pelo menos para uma pessoa de 85 anos como vovó. Dona Lia não reclamou da caminhada, muito pelo contrário. Talvez tenha incutido nela a sensação de que, apesar dos pesares, a cidade ainda guarda sua aura. Gostou muito do lugar, grande como Aparecida e escuro como a Sé.

Sentimos a tarde passar e, depois de um café, saíram. Sentir-se pequeno não basta; há que se apegar às pequenitudes da vida.

Escrito por Linguanoto às 00h25
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Miserere Nobis, Dominum

Há muito se diz que a oposição no Brasil morreu e só falta ser enterrada. A notícia que me acordou de manhã, a da queda da CPMF, parecia demonstrar o contrário. Oposição se faz com idéias, que resultam em propostas e um plano de ação. O que motivou o escore da votação, pelo que pareceu, não foi exatamente isso.

Flutuar com a opinião pública, fazer birrinha revanchista ao governo ou soltar clichês politicamente corretos não constituem, necessariamente, exercício de oposição. Ser de oposição também não é adotar porra-louquices de conveniência para passar a imagem de portador da ética e dos bons costumes, como fazia o partido do Nosso Guia no governo anterior. Daí que me veio a pergunta: já houve oposição nesse país? Lacerda estava mais para a rainha corta-cabeças de Alice do que para o opositor consciente; a guerrilha e os episódios subseqüentes a ela dizem respeito mais a manifestações pontuais do que qualquer outra coisa. Até o Corinthians, meu Deus, que dizia ter oposição, sucumbiu aos agrados do dinheiro. Há quem diga que a oposição só o era porque o bolo não foi repartido em fatias iguais. Ah, esses glutões...

A votação da CPMF mostrou também que, quando a Casa-Grande quer, ela pode. Pelas regras do jogo, a PEC do imposto poderá ser apresentada novamente ano que vem. Não no primeiro dia do ano, em que há recesso. Mas no dia dois de janeiro. Tudo bem, mesmo que o governo ganhe, a CPMF só voltaria em 2009. Mas, de hoje até o reveillon, há tempo mais que suficiente para socializar as perdas diluindo-as em outros impostos.

Os bancos terão de reduzir o número de tarifas cobradas de 50 para, no máximo, 20. Um alívio para os clientes do Bradesco? Nem um pouco. Entre a sanção e a aplicação, há um período de 180 dias, também mais que suficientes para 20 valer 50.

No fundo, vemos que relativizar é bom, mas cansa. E tende piedade de nós, senhor.

Escrito por Linguanoto às 19h32
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Chove lá fora...

Papo de elevador: o ano passou depressa. Voou. Propus a mim mesmo um único desafio para o ano. Apareceram mais dois. O primeiro parece cada vez mais intransponível; os outros dois, com boa temperança, talvez garantam o ano.

Há quase ano apresentei meu projeto para a banca. Tecnicamente, foi meu último dia de Cásper, aquele 19 de dezembro. Curiosamente, nesse mesmo dia, parte do meu futuro estará em jogo. Dos três desafios, dois ficarão. O próximo dia 19 não chega.



Escrito por Linguanoto às 12h59
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Freeeeeeedom!

Apartamento vazio, disponível até as festividades, pelo menos. A alegria é vã, passageira, mas vale. Aos poucos, vejo que chega a hora de correr atrás do meu espaço vital, talvez a única teoria nazista que tenha um fundo de verdade. No caso deles, é claro, o espaço vital era o mundo. Para mim, custa pouco estar bem: uma cama, uma estante que abrigue todos os meus livros, uma mesa, uma cadeira, cama, banheiro e cozinha. Queria voltar a ter um aquário, mas isso já é pedir demais.



Escrito por Linguanoto às 21h13
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Pauper et humilis

A moral cristã ensina aos seus filhos que dar esmola ao pobres é uma das formas de praticar o bem. Os árabes não podem negá-la, salvo em condições de extrema necessidade. O autor que vos fala, que nem é cristão por completo nem tem vínculo com algum a Arábia, apieda-se dos que sofrem e, quando pode, os ajuda.

Não, não vou defender a causa dos pobres nem direi que estou cansado de ser interpelado por eles, embora alguns deles sejam insuportavelmente inconvenientes. Desde que me mudei para São Paulo, descobri personagens pitorescos e sua criatividade inconteste. O primeiro que conheci foi direito ao assunto: precisava de um real para inteirar o dinheiro para uma dose de pinga. Ajudei-o sem titubear e, além do dinheiro, ofereci cigarros para passar a noite. Deixei claro que só o ajudei pela sinceridade, ele agradeceu e foi embora.

Um outro era professor de arquitetura, mas, ao contrário do primeiro, era pouco sincero. Abordou-me na porta do café ao lado do Sesc e puxou conversa; mas, falastrão que era, monopolizava a conversa. Dizia ter câncer na bexiga, responsável pelo divórcio, pelo abandono da família e pela calça urinada. Queria passar a noite em qualquer lugar que não fosse rua nem albergue, e pedia algum dinheiro para isso. Não entendi muito bem a proposta; de qualquer forma, estava sem um puto no bolso. Deixei-o na portaria do prédio, busquei uma calça velha, um blazer de brechó que há muito tempo pedia para sair e, por ironia, enchi um copo de capuccino Starbucks que guardei há um bom tempo. Em vez de capuccino, um café com leite. Ele chorou, apertou forte minha mão, e pediu para conversar mais no outro dia. Nunca mais o vi.

Por que falar de tudo isso? Vanglória? Talvez. Há um trecho das Memórias Póstumas em que o defunto-autor questiona a máxima de Erasmo de Roterdã, ao dizer que um burro coça o outro sem interesse algum: Asinus asinum fricat. Ajudar alguém é, também, mostrar-se maior que ela, um fazer bem a si próprio, elevar-se à condição de honra. Para Cubas, não há dúvida de que, se um burro coçar o outro com mais intensidade, o primeiro certamente sentirá uma pontinha de superioridade. Não ajudo os outros apenas por isso, mas porque, às vezes, também preciso ser ajudado. Mas nem sempre consigo.



Escrito por Linguanoto às 22h53
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De Indis

Spaniards' cruelties. Engraving by Theodore de Bry, illustrating Las Casas' Destruction


 

O caderno Aliás do Estadão de hoje trouxe uma entrevista com o historiador Carlos Guilherme Mota sobre a situação atual dos presídios brasileiros. Superlotação, menores de idade enclausurados, meninas obrigadas a dividir cela com marmanjos e presos amarrados a correntes e cadeados que remetem às pinturas de escravos com grilhões de Debret. Essa conjuntura de fatores não é, segundo Mota, prenúncio do fundo do poço. É o fundo do poço em si. Em outras palavras, bem-vindos à barbárie.

            Uma das poucas digressões pseudo-intelectualóides que fiz questão de preservar dos anos de formação é a acepção do adjetivo bárbaro. Os gregos da Antiguidade clássica usavam o termo barbarói para designar todo aquele que ou não falava sua língua, ou que, ao tentar pronunciá-la, balbuciava apenas algumas palavras do idioma. Os romanos estenderam o campo semântico do termo, vinculando-o àqueles que, além de não falar latim, travavam guerras e invadiam as fronteiras a leste do Império. Séculos mais tarde, os espanhóis condenaram a barbárie dos nativos do novo mundo, com seus rituais ingênuos, pagãos e antropófagos. Até que Frei Bartolomé de Las Casas inverteu os valores ao afirmar que eram os espanhóis, de fato, os verdadeiros bárbaros e infiéis. De lá para cá, o adjetivo serviu para qualificar o número de mortos na Primeira Guerra Mundial, a guerra civil espanhola, o holocausto judeu nos campos de concentração nazistas e as explosões atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Barbárie é, em si, palavra-valise que se aplica a qualquer fenômeno em grande escala, recente e pouco explicado. É o caso do mundo pós-moderno, pós-11 de setembro e pós-Revolução científico-tecnológica. É também, como não poderia deixar de ser, o Brasil.

            Carlos Guilherme Mota afirmou ao Aliás que o sistema prisional brasileiro é apenas o intestino de um grande organismo enfermo. A metáfora, de tão interessante, permite dupla interpretação: uma relativista e outra reacionária.

            A reacionária, que muitas vezes corresponde ao pensamento dos espécimes de classe média com quem convivo, remete àquela antiga crença positivista das teorias médicas. Euclides da Cunha, por exemplo, escreveu Os Sertões imaginando que o Estado republicano seria um grande organismo vivo, e que Canudos, por sua vez, era um germe com potencial de contaminação. O que fazer com o germe? Bom, a história está aí, e há quem disso tudo conclua que o melhor a se fazer com presos, traficantes e favelados é...

            A metáfora relativista contemporiza o “intestino”, que seria uma ressonância de tudo aquilo que se tem feito nesse país nos últimos cinco séculos. A tradição escravocrata, que aqui perdurou por 400 anos, a descrença no poder das leis, o personalismo na política, o corporativismo nos ofícios, a ausência de heróis nacionais (os de hoje são os vencedores do Big Brother ou o artilheiro do Brasileirão) ou dos Pilgrim fathers (os nossos eram degredados e presos políticos), tudo isso, enfim, contribuiu para chegar ao quadro atual da barbárie.

            Sem falar em educação, que mereceria um capítulo à parte. A tendência conservadora e centralizadora – que, com picos de concentração e períodos de afrouxamento, vem perfazendo o cenário político desde o Império –, priorizou a implantação de ilhotas de conhecimento. A criação da Universidade de São Paulo, nos anos 30, exemplifica bem o caso. Esses redutos, por sua vez, seriam responsáveis pelo desenvolvimento do país. Uma revisão do mito sebastianista do salvador da pátria, dos “iluminados” que, tal como Atlas, carregariam o peso do mundo nos ombros e levariam o país de futuro promissor adiante. O chef, no entanto, pode até fazer o bolo crescer, mas muito dificilmente reparti-lo-á em fatias equivalentes.

            A afirmação de que a barbárie é o próprio país e que a situação em que estamos remete ao nosso passado não muito distante, em si, não diz muita coisa. Como sugere Carlos Guilherme Mota, não podemos analisar o país como se fôssemos biólogos que estudam formigas em laboratório. No caso brasileiro, as formigas somos nós, e isso exige alguma postura a respeito. A primeira delas seria estudar o país como parte integrante desse grande laboratório. Um levantamento da ONU apontou que, em 2006, mais de 50 mil vidas foram perdidas devido à violência, índice esse que equivale ao de guerra civil. Nós, formiguinhas, não estamos imunes a fazer parte dessa estatística.

            Ser formiga, em si, não traz problema; se há algum, ele se refere, por vezes, a algumas formiguinhas – em geral egocêntricas, mal-educadas, leitoras de Veja e com pensamento restrito à prestação do próximo mês –, que encaram o país na perspectiva de selvagens donos de uma taba só. Índio não seria a melhor palavra, mas sim o seu contrário semântico: alienígena. Formigas alienígenas que acreditam que o país morre com elas. Se morre, não sei. Mas, curiosamente, elas vestem calças...



Escrito por Linguanoto às 22h51
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A guerra invencível

O editorial do New York Times de 18 de março, cujo título é “O exército, depois do Iraque”, traz de forma explícita algumas críticas com relação à atual política externa norte-americana. Fazia já algum tempo que não via um ponto de vista explicitado daquela forma, pois, ao que parece, a opinião expressa nos jornais segue o mesmo parâmetro de asseio em shopping center: tudo muito clean, tudo para agradar o consumidor.

“Não é preciso olhar tão cuidadosamente para os dias de hoje para ver o grande estrago que o governo Bush e a má administração do conflito no Iraque fizeram nas Forças Armadas dos Estados Unidos”, abre o editorial (tradução livre).

O plano do presidente Bush — enviar cerca de sete mil soldados por ano e, gradativamente, compor um exército de 547 mil homens até 2012 — é duramente criticado pelo jornal. “Retirar do Iraque as Forças norte-americanas e sair com a credibilidade e os interesses regionais intactos é agora, naturalmente, a prioridade mais imediata da nação”.

Não sei ao certo o que o editorialista quis dizer com “credibilidade e interesses regionais intactos”, mas esse é sem dúvida um ponto nevrálgico e discutível.

“Os EUA nunca tiveram tropas suficientes no Iraque. Em Kosovo, eram 40 mil soldados para uma população de dois milhões. Seguindo a proporção, o número de soldados no Iraque deveria ser de, no mínimo, 500 mil [número que só seria atingido em 2012, de acordo projeção mencionada no segundo parágrafo]. O acréscimo de 20 mil neste momento parece muito pouco, e tarde demais.”, diz Wesley K. Clark, general da reserva dos EUA e ex-comandante da OTAN, em artigo publicado n’O Estado de São Paulo em 10 de janeiro.

Fazendo um contrabalanço entre a opinião de Wesley Clark e a do New York Times, é possível inferir três possibilidades quanto ao futuro do conflito no Iraque: a retirada imediata das tropas, como preconiza o jornal, parte da sociedade e da opinião pública; o aumento do contingente, como propôs Bush em seu novo plano, ou, ainda, a saída diplomática, defendida pelo general da reserva.

“A verdade é que os problemas subjacentes são políticos, não militares. Talvez um novo embaixador americano pudesse ajudar, mas Washington precisa reconhecer primeiro que sua visão neoconservadora fracassou.” Não à toa, o título do artigo do Sr. Clark é bastante claro quanto às suas opiniões: “Os EUA precisam recorrer à diplomacia”.

Se alguma dessas três possibilidades manterá a credibilidade e os interesses regionais norte-americanos intactos, não sei. Mas concordo com o editorial do NYT ao dizer que “algumas lições severas deverão ser absorvidas dessa desnecessária, fracassada e agora invencível guerra”. Só trocaria o “invencível” por “inganhável”. Parece mais apropriado.



Escrito por Linguanoto às 18h09
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Na Virada

fonte: Folha online

           


            Sempre guardei algumas ressalvas com relação a eventos gratuitos e cheios de gente. Mas Alceu Valença me convenceu de que era necessário enfrentar a turba e assistir ao show que abriria a Virada Cultural.

            Comecei a ouvir Alceu na adolescência, talvez por influência de meu tio, pernambucano de Bezerros e notório contador de causos, dos quais transformei alguns em conto.

            As músicas de Alceu remetiam a imagens de uma cidade ao mesmo tempo iluminada e misteriosa. Em vez do Recife ou Olinda, pensava na Ouro Preto simbolista de Alphonsus de Guimaraens, poeta um tanto melancólico e místico, cujos versos (ao menos dos que me lembro) pareciam sussurros de preces ou badalar dos sinos.

Quando vi Alceu Valença a 100 metros de distância senti a nostalgia de um tempo não vivido. Atrás do palco, a imponente catedral da Sé estava parcialmente iluminada. Pontualmente às 18h00, os sinos deram algumas badaladas, as luzes se acenderam e Alceu acenou para o público. Emocionante. Em vez do Ângelus, o show.

Os trinta primeiros minutos foram dedicados ao LP “Espelho Cristalino”, de 1977. Músicas boas, mas desconhecidas. O povão queria pular. E por isso Alceu deu a eles uma palhinha de seus clássicos.

Quando Alceu tocou “Anunciação”, era como se tivesse composto a música especialmente para cantá-la naquele dia, naquele palco. Nunca tinha visto uma sintonia tão grande entre o artista, a música e o cenário:

 

A voz do anjo sussurrou no meu ouvido
E eu não duvido já escuto os teus sinais
Que tu virias numa manhã de domingo
Eu te anuncio nos sinos das catedrais



Escrito por Linguanoto às 14h12
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Sonho de uma noite de verão

Como dormi bem na noite passada! Meu corpo reagiu extremamente bem àquilo que há muito vinha esperando: a chegada (mesmo que ocasional) do inverno. Jacques Le Goff, um eminente historiador francês, disse certa vez que é impossível pensar nos trópicos. Sou obrigado a dar o braço a torcer.

O calor me reprime. Não agüentava mais chegar em casa com as costas molhadas de suor. E também, por mais filantropo (ou parvo) que seja, não suporto pegar ônibus nesses tempos, especialmente de manhã. As pessoas fedem e são mal-educadas. E isso não é uma generalização.

Mas não criei esse blog para falar do meu corpo.

Ouço falar por aí que o aquecimento global é a primeira besta do apocalipse (quem seriam as outras seis? Pergunte-me depois, em particular). O Sr. Al Gore fez até um documentário, o qual ainda não assisti. Ele deve ser tão filantropo quanto eu, mas a diferença é que ele foi eleito presidente, eu não.

Mas também não quero falar de picuinhas políticas.

Assisti a um documentário na National Geographic que discorria a respeito do aquecimento global. Tudo bem, o fenômeno pode ser inferido por meio de emissões de gases, queimadas de florestas e otras cositas más. Mas se trata, pelo menos por enquanto, de uma hipótese, com grandes chances de ser confirmada.

A outra hipótese que a NatGeo aborda é a de algo oposto ao aquecimento: o resfriamento global. Jaz sobre a famigerada falha de Saint-Andreas, na Califórnia, um mega-vulcão adormecido que, de acordo com os geólogos, pode entrar em erupção nos próximos 150 anos. A quantidade de fuligem, lava e detritos a ser lançada seria tão grande que parte dos raios solares teriam seu curso impedido. A temperatura global cairia cerca de 5° C a 8° C. Uma maravilha. Seria a redenção para os fabricantes de umidificadores.

A terceira hipótese, que nem Gore nem a NatGeo abordaram, talvez por parecer antiquada, é a do inverno nuclear. Em caso de uma guerra total entre as então potências URSS e EUA, a radiação emitida pelos arsenais de ambos seria suficiente para bloquear mais de 90% de atmosfera. Congelaríamos até a morte. Nós e o planeta.

Some-se tudo isso ao fato de que a Rússia não tem controle total sobre o seu antigo arsenal, e que ainda temos Irã, Paquistão, Índia e Israel como "non-realiable owners". A Coréia do Norte até poderia ter a sua bomba, mas a usou num teste que, mesmo sem ser confirmado, impressionou no mundo. Agora resta aos "coleanos" a fome, a agonia e, enfim, a queda de mais uma tirania. Apesar disso, queria ver o que aconteceria com Cuba antes.

Mas não quero falar de política internacional.

Quero aproveitar meu sonho de inverno, que é o sonho de inverno da classe média: edredon, cobertor, filme, caldo verde, chocolate quente. Ah, antes de ir: a partir de temperaturas inferiores a 15° C, um morador de rua já corre o risco de morrer de hipotermia.

Escrito por Linguanoto às 12h58
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Auto-ajuda

Estou cansado de receber aqueles e-mails "cheer up", que supostamente servem para deixar sua manhã mais alegre.

"Orgulhe-se por estar vivo, porque diariamente morrem não-sei-quantas pessoas em Bagdá", etc, etc. Não que seja ruim estar vivo, mas o problema é que as pessoas costumam parar por aí. "Ah, legal, estou vivo". E só. Estar vivo é o pretexto para fazer uma porrada de atividades. Estudar, por exemplo, é uma delas. Mas estudar a ponto de achar que sua inteligência regride à proporção das leituras. Eu preciso disso, pelo menos por enquanto.

Um artigo interessante que saiu na Revista Piauí diz que o fator delimitador entre a civilização e a barbárie é, por incrível que pareça, o vaso sanitário. Apenas um em cada 10 habitantes do globo tem o privilégio de se sentar em seu troninho. "Uau, eu tenho um vaso sanitário!", os conformistas diriam. Eu não me contento com isso. Queria uma biblioteca no banheiro e um trono estofado.

Escrito por Linguanoto às 17h01
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